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Automutilação: mitos e verdades

Automutilação: mitos e verdades

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A automutilação consiste num comportamento (dependência) em que se autoinflige sofrimento físico através de facas, tesouras, pontas de cigarro e outros elementos de tortura. Dá-se pela aplicação de cortes e queimaduras no próprio corpo, a fim de que a dor possa, de algum modo, mitigar o tormento de que a parte psicológica está a padecer.

Vejamos alguns mitos e verdades associados.

1. O que é?

Ao contrário do que se possa pensar, o objetivo da automutilação não é o suicídio, mas sim a relativização física da dor psicológica e emocional. Há, todavia, o perigo real das consequências de um corte feito com mais profundidade numa zona perigosa, até porque, a dada altura, os indivíduos que recorrem a tal “anestésico” deixam de sentir dor. A não resolução dos problemas e o sofrimento acentuado é que poderão, por consequência, constituir um fator de risco para o suicídio. Na base da automutilação está uma muito fraca autoestima e a crença de que o sofrimento é merecido.

“Anónimo”

``(…) Não senti dor, aliás estranhamente sentia-me aliviada. Desde aí que não parei mais. (…) em alguns dias cheguei a sangrar sem parar, mas sadicamente gostava de ver todo aquele sangue. O pior foi quando um corte menos preciso me perfurou uma veia principal. Quando acordei já estava numa cama de hospital. (…)

A automutilação não é um comportamento exibicionista. Na sua maioria, os sujeitos procuram áreas do corpo mais escondidas e que possam ser cobertas com peças de vestuário para esconderem as suas cicatrizes, tendo vergonha das mesmas. Estes atos são praticados na intimidade do quarto e da casa de banho, longe dos olhares de terceiros. Os indivíduos procuram esconder os cortes e queimaduras enquanto podem, como um segredo que lhes confere poder e controlo.

“Anónimo”

“Para esconder as marcas dos cortes, usava camisas compridas. Além disso, cortava-me nas pernas porque assim sempre levantava menos suspeitas.”

A automutilação pode aparecer em concomitância com diversas perturbações, em particular com distúrbios alimentares. Estar atento de forma a detetar os sinais de alerta destes distúrbios pode ser passível de fazer a diferença entre a vida e a morte; muitos são os casos de automutilação que, todos os dias, dão entrada nas urgências dos hospitais. Ainda assim, a automutilação pode aparecer em conjunto com sintomas de depressão e de fobia social. Na sua génese, está um sofrimento intenso e contínuo e um desespero persistente, caracterizado pela descrença absoluta em si, nos outros e na vida.  

A automutilação decorre do não desenvolvimento de estratégias saudáveis para lidar com a angústia, revelando uma fragilidade na construção da personalidade. Este hábito, tornado num padrão, é extremamente difícil de abandonar, já que é uma forma dos indivíduos com esta compulsão lidarem com a pressão ou sofrimento.

“Anónimo”

“Para esconder as marcas dos cortes, usava camisas compridas. Além disso, cortava-me nas pernas porque assim sempre levantava menos suspeitas.”

Há uma vertente da automutilação em que as inscrições no corpo funcionam como fatores de identificação no seio de um grupo, confundindo-se sofrimento com estética. A scarification é uma cicatriz semelhante a uma tatuagem, só que executada com um bisturi. O branding, igualmente doloroso, carimba a pele com um ferro quente, como se faz com certos animais.

2. Sintomas

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Perturbações do sono e do apetite, sentimentos de culpa, decréscimo do desempenho escolar/profissional e, por vezes, ideias de suicídio expressas em palavras são alguns dos sintomas associados a esta doença. Por vezes, é motivo de orgulho e de descanso para os pais que um jovem não goste de sair à noite, porque estará afastado de um ambiente em que se bebe, fuma ou se consome outras substâncias, para além de não arranjar problemas. No entanto, a recusa do convívio com gente da sua idade e a falta de amigos podem indicar que algo não está bem. Quando se vem a descobrir o que não anda a correr da melhor forma, o indivíduo está já, muitas vezes, obcecado pela tortura do seu corpo.

3. Existe tratamento?

Sim! Esta doença que desafia a vida da própria pessoa é passível de ser ultrapassada com o devido tratamento especializado que olha para o indivíduo como um todo, e não apenas para a sua adição. Procure ajuda especializada!

Em suma, estes atos visam diversas maneiras de aceder a um alívio temporário e a uma breve distanciação da amargura da alma. Apesar de as estatísticas apontarem para uma diminuição do número de suicídios, há indicadores de risco que estão a aumentar, como é o caso dos para-suicídios, ou seja, das autoagressões. É importante referir que estes atos são praticados por pessoas de qualquer faixa etária ou género.

RESUMO

A automutilação afeta menos de 10% dos adolescentes e é mais frequente nas raparigas, embora também aconteça com os rapazes. A automutilação surge quando lidar com a dor física se parece mais fácil do que lidar com a dor e o sofrimento emocional. Normalmente acontece em segredo, sem ninguém saber. Assim, trata-se de uma forma de causar dor ou danos superficiais ao próprio corpo, mas sem intenção de causar morte.

Mesmo quando a automutilação não causa a morte, as pessoas que a praticam têm, provavelmente, mais propensão a tentar ou cometer o suicídio. Assim, os médicos e familiares não devem menosprezar a prática da automutilação.

Não ignore este problema, mesmo que não seja diretamente consigo. Conte sempre connosco.

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